Levantou-se
vagarosamente.
Banho.
Ah, o imbatível banho quente, muito quente (a despeito de todos os compêndios
médicos e estéticos, não abria mão desse prazer visceral).
Todo
aquele ritual de sábado de sol: abrir as janelas, fazer a cama, banho demorado,
creme nas pernas ainda enrolada na toalha, leitura de duas páginas do livro,
checagem dos e-mails e mensagens da noite, guardar os atavios para começar o
dia de folga.
A
casa rescendia a sândalo (acendera uma vareta do incenso preferido assim que
chegara do encerramento do círculo semanal), e estava impecável depois da
limpeza feita pela fiel escudeira.
Os
lençóis de algodão também foram trocados na véspera, e ainda traziam o cheiro
do sabão, e o toque macio no contato com a pele.
Guardando
os apetrechos no grande armário, viu A Caixa — grande figura colorida,
recoberta com fotografias de seus mais queridos, e recheada de outro tanto.
Trouxe para baixo, para cima da cama.
Sentou-se
com ela entre as pernas (ainda enrolada na toalha, porque era sábado, e não
havia pressa para nada).
Pequenos
pedaços brilhantes de papel recoberto de imagens — isso é uma fotografia. Nada
mais que isso.
Ledo
engano...
Esses
“pequenos pedaços de papel” têm vida, sim, senhora!! E essas vidas começaram a
sair da Caixa, andando pela casa lavada de sol, conversando entre si, sentando
na cama para contar as velhas histórias, tagarelando em vários tons, quase
sempre sorrindo, trazendo no colo a alegria compartilhada. E ficaram por ali,
sem pressa de se recolher — uma vez que já estavam congeladas no tempo e no
espaço. E afinal de contas, não era sábado? Então ficaram por ali espalhadas,
tomando conta dos nichos da casa.
E
ela nem reclamou. A casa era deles.
Mas
havia mais que pedacinhos de papel brilhante. Havia outros papéis, opacos por
seu turno, e até amarelados, porém igualmente repletos de vida e emoção.
No
entanto, agora tinha pressa. E despachou a turba tagarela, que não tinha a
mesma pressa de volta à Caixa. Foi levemente exasperada que o fez, porque eles
estavam recalcitrantes, gostaram da manhã de sol borboleteando fora da Caixa.
Quando
se viu a sós, com o sol e todos aquelas memórias, não resistiu: refestelou-se
na cama, a toalha já soltando-se do corpo, deixando-a nua, pele pálida,
entregue à preguiça sabatina.
E
ela, num instante, viajou. Por todas as palavras, todos os rostos, todos os
dorsos, todos os sorrisos, todas as juras, todas as picardias. Até mesmos
algumas dores, porque foram inevitáveis.
Mas não doíam mais, apenas estavam registradas, aconteceram, sangraram,
verteram lágrimas.
Porém,
ela agora estava ali, plena de vida, vitoriosa, senhora da Caixa e seu conteúdo
sagrado e profano, simultaneamente. Com a certeza de que, mesmo se A Caixa lhe
for tomada, por quaisquer motivos, não lhe tirarão o conteúdo. Jamais !
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