terça-feira, 9 de julho de 2013

A Caixa

Levantou-se vagarosamente.
Banho. Ah, o imbatível banho quente, muito quente (a despeito de todos os compêndios médicos e estéticos, não abria mão desse prazer visceral).
Todo aquele ritual de sábado de sol: abrir as janelas, fazer a cama, banho demorado, creme nas pernas ainda enrolada na toalha, leitura de duas páginas do livro, checagem dos e-mails e mensagens da noite, guardar os atavios para começar o dia de folga.
A casa rescendia a sândalo (acendera uma vareta do incenso preferido assim que chegara do encerramento do círculo semanal), e estava impecável depois da limpeza feita pela fiel escudeira.
Os lençóis de algodão também foram trocados na véspera, e ainda traziam o cheiro do sabão, e o toque macio no contato com a pele.
Guardando os apetrechos no grande armário, viu A Caixa — grande figura colorida, recoberta com fotografias de seus mais queridos, e recheada de outro tanto. Trouxe para baixo, para cima da cama.
Sentou-se com ela entre as pernas (ainda enrolada na toalha, porque era sábado, e não havia pressa para nada).
Pequenos pedaços brilhantes de papel recoberto de imagens — isso é uma fotografia. Nada mais que isso.
Ledo engano...
Esses “pequenos pedaços de papel” têm vida, sim, senhora!! E essas vidas começaram a sair da Caixa, andando pela casa lavada de sol, conversando entre si, sentando na cama para contar as velhas histórias, tagarelando em vários tons, quase sempre sorrindo, trazendo no colo a alegria compartilhada. E ficaram por ali, sem pressa de se recolher — uma vez que já estavam congeladas no tempo e no espaço. E afinal de contas, não era sábado? Então ficaram por ali espalhadas, tomando conta dos nichos da casa.
E ela nem reclamou. A casa era deles.
Mas havia mais que pedacinhos de papel brilhante. Havia outros papéis, opacos por seu turno, e até amarelados, porém igualmente repletos de vida e emoção.
No entanto, agora tinha pressa. E despachou a turba tagarela, que não tinha a mesma pressa de volta à Caixa. Foi levemente exasperada que o fez, porque eles estavam recalcitrantes, gostaram da manhã de sol borboleteando fora da Caixa.
Quando se viu a sós, com o sol e todos aquelas memórias, não resistiu: refestelou-se na cama, a toalha já soltando-se do corpo, deixando-a nua, pele pálida, entregue à preguiça sabatina.
E ela, num instante, viajou. Por todas as palavras, todos os rostos, todos os dorsos, todos os sorrisos, todas as juras, todas as picardias. Até mesmos algumas dores, porque foram inevitáveis.  Mas não doíam mais, apenas estavam registradas, aconteceram, sangraram, verteram lágrimas.
Porém, ela agora estava ali, plena de vida, vitoriosa, senhora da Caixa e seu conteúdo sagrado e profano, simultaneamente. Com a certeza de que, mesmo se A Caixa lhe for tomada, por quaisquer motivos, não lhe tirarão o conteúdo. Jamais !

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