terça-feira, 9 de julho de 2013

onde arranjar palavras que prestem ?
palavras que realmente expressem os sentimentos, os assombros, as angústias?
palavras que não deixem dúvidas, nem certezas inadequadas.
palavras com medida exata — largura, comprimento, profundidade. 
tarefa quase impossível. 
daí o sucesso de poetas e escritores, que sabem utilizá-las para traduzir o que se esconde nos labirintos 
dos corações humanos.
dominando uma língua, domina-se uma forma, mas não o conteúdo (ou mesmo o continente).
cabe ao operário da palavra escavar em busca do tesouro — a frase perfeita, que saia de uma mente e atinja outra, como um flecha bem lançada, por uma trajetória impecável.
mesmo sendo dúbia, ainda é mágica (se não mais!).
pois se a frase perfeita causa comoção pela precisão,
a ambígua causa pela pelo oposto, pelas possíveis interpretações, pela impossível certeza.

A Caixa

Levantou-se vagarosamente.
Banho. Ah, o imbatível banho quente, muito quente (a despeito de todos os compêndios médicos e estéticos, não abria mão desse prazer visceral).
Todo aquele ritual de sábado de sol: abrir as janelas, fazer a cama, banho demorado, creme nas pernas ainda enrolada na toalha, leitura de duas páginas do livro, checagem dos e-mails e mensagens da noite, guardar os atavios para começar o dia de folga.
A casa rescendia a sândalo (acendera uma vareta do incenso preferido assim que chegara do encerramento do círculo semanal), e estava impecável depois da limpeza feita pela fiel escudeira.
Os lençóis de algodão também foram trocados na véspera, e ainda traziam o cheiro do sabão, e o toque macio no contato com a pele.
Guardando os apetrechos no grande armário, viu A Caixa — grande figura colorida, recoberta com fotografias de seus mais queridos, e recheada de outro tanto. Trouxe para baixo, para cima da cama.
Sentou-se com ela entre as pernas (ainda enrolada na toalha, porque era sábado, e não havia pressa para nada).
Pequenos pedaços brilhantes de papel recoberto de imagens — isso é uma fotografia. Nada mais que isso.
Ledo engano...
Esses “pequenos pedaços de papel” têm vida, sim, senhora!! E essas vidas começaram a sair da Caixa, andando pela casa lavada de sol, conversando entre si, sentando na cama para contar as velhas histórias, tagarelando em vários tons, quase sempre sorrindo, trazendo no colo a alegria compartilhada. E ficaram por ali, sem pressa de se recolher — uma vez que já estavam congeladas no tempo e no espaço. E afinal de contas, não era sábado? Então ficaram por ali espalhadas, tomando conta dos nichos da casa.
E ela nem reclamou. A casa era deles.
Mas havia mais que pedacinhos de papel brilhante. Havia outros papéis, opacos por seu turno, e até amarelados, porém igualmente repletos de vida e emoção.
No entanto, agora tinha pressa. E despachou a turba tagarela, que não tinha a mesma pressa de volta à Caixa. Foi levemente exasperada que o fez, porque eles estavam recalcitrantes, gostaram da manhã de sol borboleteando fora da Caixa.
Quando se viu a sós, com o sol e todos aquelas memórias, não resistiu: refestelou-se na cama, a toalha já soltando-se do corpo, deixando-a nua, pele pálida, entregue à preguiça sabatina.
E ela, num instante, viajou. Por todas as palavras, todos os rostos, todos os dorsos, todos os sorrisos, todas as juras, todas as picardias. Até mesmos algumas dores, porque foram inevitáveis.  Mas não doíam mais, apenas estavam registradas, aconteceram, sangraram, verteram lágrimas.
Porém, ela agora estava ali, plena de vida, vitoriosa, senhora da Caixa e seu conteúdo sagrado e profano, simultaneamente. Com a certeza de que, mesmo se A Caixa lhe for tomada, por quaisquer motivos, não lhe tirarão o conteúdo. Jamais !

segunda-feira, 13 de maio de 2013

quase outra...



esteve aqui uma pessoa, uma mulher, uma perdida.
cujo vulto vejo à distância, e sinto um certo alívio em vê-la 
se afastando.
não que fosse má de qualquer forma conhecida, ou grosseira,
ou feia, ou ainda desalmada.
mas causava-me enormes prejuízos, sem me dar conta que era necessário despejá-la, e que talvez ainda fosse preciso o uso de força !!
não foi sem dor que ela está agora lá longe na estrada que leva às brumas.
quisera uma convivência pacífica, não foi possível.
porém, com todos os percalços, devo-lhe gratidão profunda. Pelo que ela conseguiu, à sua maneira.
Talvez não a mais doce, nem a mais alegre, nem menos traumática, mas ainda assim, vida plena!
Eu não queria que ela se sentisse desamada, porque tudo o que fez, foi com tudo o que ela podia oferecer de bom.
Mas vejo-a se afastando e quero voltar correndo pra onde era o reino dela e me apossar dele o quanto antes — ela deu o seu melhor, mas aqui não reinará mais !!
Eu agora sou a soberana desta terra, deste solo, deste leito!
Aposso-me de tudo isso com garra, com amor, com paixão — e nada nem ninguém mos tomará !